Por que escrevo, por George Orwell

Desde muito pequeno, talvez com cinco ou seis anos, sabia que, quando crescesse, deveria ser escritor. Entre cerca de 17 e 24 anos, tentei abandonar essa ideia, mas fiz isso com a consciência de que estava enganando minha verdadeira natureza e que cedo ou mais tarde teria que me acalmar e escrever livros.

Fui o filho do meio de três irmãos, mas havia um intervalo de cinco anos entre mim e eles, e mal vi meu pai antes dos oito anos. Por essas e outras razões, eu me sentia um pouco solitário e logo desenvolvi manias desagradáveis ​​que me tornaram impopular durante meus anos de escola. Eu tinha o hábito das crianças solitárias de inventar histórias e conversar com pessoas imaginárias, e acho que desde o início minhas ambições literárias se misturavam com o sentimento de me sentir isolado e menosprezado. Sabia que tinha uma facilidade com as palavras e um poder para encarar fatos incômodos, e sentia que isso criava uma espécie de mundo privado que poderia compensar minhas falhas na vida cotidiana. Não obstante, o volume de textos sérios — isto é, com intenção séria — que produzi durante toda a minha infância e juventude não chegaria a meia dúzia de páginas. Escrevi meu primeiro poema aos quatro ou cinco anos, ditando para minha mãe que anotava. Não consigo me lembrar de nada sobre isso, exceto que era sobre um tigre e que o tigre tinha “dentes de cadeira” — uma frase razoável, mas imagino que o poema fosse um plágio de Tigre, tigre de William Blake. Aos onze, quando estourou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), escrevi um poema patriótico que foi impresso no jornal local, assim como outro, dois anos depois, sobre a morte de Kitchener de Cartum. De vez em quando, um pouco mais velho, escrevi alguns maus, geralmente inacabados, “poemas sobre a natureza” no estilo georgiano. Eu também, cerca de duas vezes, tentei um conto que foi um fracasso medonho. Esse foi o total do pretenso trabalho sério que de fato coloquei no papel durante todos aqueles anos.

Entretanto, durante todo esse tempo, eu me envolvi no que poderia ser chamado de atividades literárias. Para começar, havia coisas feitas por encomenda que eu produzia com rapidez, com facilidade e sem muito prazer para mim. Além do trabalho escolar, escrevi vers d’occasion, poemas semicômicos que conseguia produzir no que agora me parece uma velocidade surpreendente — aos 14 anos, escrevi uma peça inteira rimada, imitando Aristófanes, em cerca de uma semana — e ajudei a editar revistas escolares, tanto impressas como manuscritas. Essas revistas eram as coisas burlescas mais lamentáveis ​​que se poderia imaginar, e eu tive muito menos problemas com elas do que agora com o jornalismo mais barato. Mas, paralelamente a isso, durante quinze anos ou mais, fui realizando um exercício literário de um tipo bem diferente: era a construção de uma “história” contínua sobre mim, uma espécie de diário existente apenas na mente. Acredito que isso seja um hábito comum entre crianças e adolescentes. Quando criança, costumava imaginar que eu era, digamos, Robin Hood, e me imaginava como o herói de aventuras emocionantes, mas logo minha “história” deixou de ser cruamente narcisista e tornou-se cada vez mais uma mera descrição do que eu fazia e das coisas que via. Por alguns minutos, este tipo de coisa passava pela minha cabeça: “Ele empurrou a porta e entrou na sala. Um raio de sol amarelo, filtrando-se pelas cortinas de musselina, incidia sobre a mesa, onde uma caixa de fósforos, semiaberta, estava ao lado do tinteiro. Com a mão direita no bolso, ele foi até a janela. Na rua, um gato malhado perseguia uma folha morta” etc. Esse hábito continuou até eu ter cerca de 25 anos, durante minha fase não literária. Embora eu tivesse de procurar, e realmente procurasse, as palavras certas, parecia estar fazendo esse esforço descritivo quase contra a minha vontade, sob uma espécie de compulsão de fora. A “história” deve, suponho, ter refletido os estilos dos vários escritores que admirava em diferentes idades, mas, pelo que me lembro, sempre teve a mesma meticulosa qualidade descritiva.

Quando eu tinha cerca de dezesseis anos, de repente descobri a alegria de meras palavras, ou seja, os sons e suas combinações. As falas de Paraíso perdido (de John Milton):

“Então, ele com dificuldade e trabalho duro

Seguiu adiante: com dificuldade e trabalho,”

que agora não me parecem tão maravilhosos, causavam arrepios na minha espinha; e a grafia de hee no lugar de he foi um prazer adicional. Quanto à necessidade de descrever as coisas, eu já sabia de tudo. Portanto, estava claro qual tipo de livro eu queria escrever, até onde se pode dizer que eu queria escrever livros naquela época. Eu queria escrever enormes romances naturalistas com finais infelizes, cheios de descrições detalhadas e igualmente impressionantes, e também cheios de passagens rebuscadas em que as palavras fossem usadas em parte por causa de seu som. E, de fato, meu primeiro romance completo, Dias na Birmânia, que escrevi quando tinha 30 anos, mas projetei muito antes, é esse tipo de livro.

Dou todo esse pano de fundo porque não acho que alguém possa avaliar os motivos de um escritor sem saber algo sobre seu desenvolvimento inicial. Seu tema será determinado pela época em que ele vive — pelo menos isso é verdade em épocas tumultuadas e revolucionárias como a nossa —, mas antes de começar a escrever, ele terá adquirido uma atitude emocional da qual nunca escapará completamente. É seu trabalho, sem dúvida, disciplinar seu temperamento e evitar ficar preso em algum estágio imaturo, ou em algum humor perverso: mas se ele escapar totalmente de suas primeiras influências, ele terá matado seu impulso de escrever. Deixando de lado a necessidade de ganhar dinheiro para viver, acho que existem quatro grandes motivos para escrever, pelo menos para escrever prosa. Eles existem em graus diferentes em cada escritor, e em qualquer escritor as proporções irão variar de tempos em tempos, de acordo com a atmosfera em que ele está vivendo. Eles são:

1. Puro egoísmo. Desejo de parecer inteligente, de ser falado, de ser lembrado após a morte, de se vingar de adultos que o esnobaram na infância etc. É uma hipocrisia fingir que esse não é um motivo, e um motivo forte. Os escritores compartilham essa característica com cientistas, artistas, políticos, advogados, soldados, homens de negócios de sucesso — em suma, com toda a crosta superior da humanidade. A grande massa de seres humanos não é profundamente egoísta. Após a idade de cerca de 30 anos, eles abandonam a ambição individual — em muitos casos, na verdade, eles quase abandonam a sensação de serem indivíduos — e vivem principalmente para os outros, ou simplesmente são asfixiados pelo trabalho enfadonho. Mas também existe a minoria de pessoas talentosas e obstinadas que estão determinadas a viver suas próprias vidas até o fim, e os escritores pertencem a essa classe. Escritores sérios são, em geral, mais vaidosos e egocêntricos que os jornalistas, embora menos interessados ​​em dinheiro.

2. Entusiasmo estético. Percepção da beleza no mundo externo, ou, por outro lado, nas palavras e seu correto arranjo. Prazer no impacto de um som no outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história. Desejo de compartilhar uma experiência que acredita ser valiosa e que não pode ser perdida. O motivo estético é muito fraco em muitos escritores, mas mesmo um escritor de panfletos ou de livros didáticos terá palavras e frases preferidas que o atraem por razões não utilitárias; ou ele pode ter uma queda por tipografia, largura de margens, etc. Acima do nível de um guia sobre linhas de trem, nenhum livro está totalmente isento de considerações estéticas.

3. Impulso histórico. Desejo de ver as coisas como elas são, de descobrir fatos verdadeiros e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político. Uso a palavra “político” no sentido mais amplo possível. Desejo de empurrar o mundo em uma determinada direção, de alterar a ideia de outras pessoas sobre o tipo de sociedade pela qual devem se empenhar. Mais uma vez, nenhum livro está genuinamente livre de viés político. A opinião de que a arte não deve ter nada a ver com política é em si uma atitude política.

Pode-se ver como esses vários impulsos devem guerrear uns com os outros e como devem variar de pessoa para pessoa e de tempos em tempos. Por natureza — considerando “natureza” o estado alcançado quando se torna adulto — sou uma pessoa em quem os três primeiros motivos pesam mais que o quarto. Em uma época pacífica, eu poderia ter escrito livros requintados ou meramente descritivos, e poderia ter permanecido quase inconsciente de minhas lealdades políticas. Na verdade, fui forçado a me tornar uma espécie de panfleteiro. Primeiro, passei cinco anos numa profissão inadequada (a polícia imperial indiana, na Birmânia), depois passei pela pobreza e pela sensação de fracasso. Isso aumentou meu ódio natural pela autoridade e me tornou, pela primeira vez, totalmente consciente da existência das classes trabalhadoras, e o trabalho na Birmânia me deu alguma compreensão da natureza do imperialismo: mas essas experiências não foram suficientes para me dar uma orientação política precisa. Depois veio Hitler, a Guerra Civil Espanhola, etc. No final de 1935, eu ainda não havia chegado a uma decisão firme. Lembro-me de um pequeno poema que escrevi naquela data, expressando meu dilema:

“Eu poderia ter sido um vigário feliz

Duzentos anos atrás,

Para pregar sobre a condenação eterna

E assistir à nogueira crescer

Mas nascido, infelizmente, em tempos ruins,

Eu perdi aquele paraíso agradável,

Pois os pelos cresceram no meu lábio superior

E o clero está todo bem barbeado.

E mais tarde ainda os tempos foram bons,

Éramos tão fáceis de agradar,

Nós embalávamos nossos pensamentos problemáticos para dormir

No aconchego das árvores.

Todos ignorantes, ousamos possuir

As alegrias que agora disfarçamos;

O passarinho no galho da macieira

Pode fazer meus inimigos tremerem.

Mas os ventres das meninas e os damascos,

Baratas em um riacho sombreado,

Cavalos, patos voando ao amanhecer,

Tudo isso é um sonho.

É proibido sonhar novamente;

Nós mutilamos nossas alegrias ou as escondemos;

Os cavalos são feitos de aço inoxidável

E homenzinhos gordos devem montá-los.

Eu sou o verme que nunca mudou,

O eunuco sem harém;

Entre o padre e o comissário

Eu ando como Eugene Aram;

E o comissário está dizendo a minha sorte

Enquanto o rádio toca,

Mas o padre prometeu um Austin Seven,

Pois Duggie sempre paga.

Eu sonhei que morava em corredores de mármore,

E acordei para descobrir que era verdade;

Não nasci para uma idade como esta;

Foi Smith? Foi Jones? Foi você?”

A guerra espanhola e outros eventos em 1936 e 1937 mudaram o equilíbrio da situação e depois disso eu soube onde estava. Cada linha de trabalho sério que fiz desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, da forma como eu o entendo. Parece-me absurdo, em uma época como a nossa, pensar que se pode evitar escrever sobre esses assuntos. Todo mundo escreve sobre eles de uma forma ou de outra. É simplesmente uma questão de qual lado se toma e que abordagem se segue. E quanto mais consciente uma pessoa for de seu viés político, maior a chance de agir politicamente sem sacrificar sua integridade estética e intelectual.

O que eu mais quis fazer nos últimos dez anos foi transformar a escrita política em arte. Meu ponto de partida é sempre um sentimento de partidarismo, um sentimento de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo a mim mesmo: “Vou produzir uma obra de arte”. Escrevo porque há alguma mentira que quero expor, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e minha preocupação inicial é conseguir uma audiência. Mas eu não poderia fazer o trabalho de escrever um livro, ou mesmo um longo artigo de revista, se essa não fosse também uma experiência estética. Qualquer pessoa que se importe em examinar meu trabalho verá que, mesmo quando se trata de pura propaganda, contém muita coisa que um político consideraria irrelevante. Não sou capaz e não quero abandonar completamente a visão de mundo que adquiri na infância. Enquanto estiver vivo e bem, continuarei a valorizar o estilo da prosa, a amar a superfície da terra e a ter prazer em objetos sólidos e fragmentos de informações inúteis. Não adianta tentar suprimir esse meu lado. O trabalho é reconciliar meus gostos e desgostos arraigados com as atividades essencialmente públicas e não individuais que esta era impõe a todos nós.

Não é fácil. Isso levanta problemas de construção e de linguagem, e suscita de uma nova maneira o problema da veracidade. Deixe-me dar apenas um exemplo do tipo mais grosseiro de dificuldade que surge. Meu livro sobre a guerra civil espanhola, Homenagem à Catalunha, é obviamente um livro claramente político, mas no geral é escrito com um certo distanciamento e consideração pela forma. Eu me esforcei muito em contar toda a verdade sem violar meus instintos literários. Mas, entre outras coisas, o livro contém um longo capítulo, cheio de citações de jornais e coisas do tipo, defendendo os trotskistas que foram acusados ​​de conspirar com Franco. Obviamente um capítulo como esse, que depois de um ou dois anos perderia o interesse de qualquer leitor comum, deve arruinar o livro. Um crítico que eu respeito deu para mim uma aula sobre isso. “Por que você inseriu todas aquelas coisas?”, ele disse. “Você transformou o que poderia ter sido um bom livro em jornalismo.” O que ele disse era verdade, mas eu não poderia ter feito de outra forma. Acontece que eu sabia, o que muito poucas pessoas na Inglaterra podiam saber, que homens inocentes estavam sendo falsamente acusados. Se eu não estivesse com raiva disso, nunca teria escrito o livro.

De uma forma ou de outra, esse problema surge novamente. O problema da linguagem é mais sutil e demoraria muito para ser discutido. Direi apenas que, nos últimos anos, tentei escrever de forma menos pitoresca e com mais exatidão. Em qualquer caso, acho que, no momento em que se aperfeiçoa qualquer estilo de escrita, nós o superamos. A Revolução dos Bichos foi o primeiro livro em que tentei, com plena consciência do que estava fazendo, fundir propósito político e propósito artístico em um todo. Não escrevo um romance há sete anos, mas espero escrever outro em breve. Está fadado a ser um fracasso, todo livro é um fracasso, mas eu sei com alguma clareza que tipo de livro quero escrever.

Olhando para trás na última página ou nas últimas duas, vejo que fiz parecer que meus motivos para escrever eram totalmente de espírito público. Não quero deixar isso como impressão final. Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e no fundo de seus motivos reside um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como uma longa crise de alguma doença dolorosa. Alguém nunca empreenderia tal coisa se não fosse impelido por algum demônio a quem não se pode resistir ou compreender. Pelo que se sabe, esse demônio é simplesmente o mesmo instinto que faz um bebê gritar por atenção. E, no entanto, também é verdade que não se pode escrever nada legível, a menos que se esforce constantemente para apagar a própria personalidade. A boa prosa é como uma vidraça. Não posso dizer com certeza quais dos meus motivos são os mais fortes, mas sei quais deles merecem ser seguidos. E olhando para trás em meu trabalho, vejo que é invariavelmente onde me faltava um propósito político que escrevi livros sem vida e fui traído em passagens rebuscadas, frases sem significado, adjetivos decorativos e farsa em geral.

Revista Gangrel, nº 4, escritor no verão de 1946. Tradução de Duda Teixeira

Reflexões sobre Gandhi, por George Orwell

O escritor britânico George Orwell escreveu, em 1949, a resenha de uma autobiografia de Mahatma Gandhi (1968-1948) para o jornal Partisan Review. Ao falar sobre o advogado indiano que liderou a independência da Índia do Império Britânico, Orwell faz críticas duras aos ensinamentos de Gandhi e ao modo como conduziu sua vida. Será que a ideia de não violência, ou satyagraha, poderia ser aplicável aos judeus na Segunda Guerra Mundial ou aos famintos ucranianos durante o Holodomor? Até que ponto nossa vida deve ser a busca da santidade, deixando de lado nossas amizades íntimas e amores? Neste ensaio breve, aqui em tradução livre, Orwell levanta questões pertinentes e pouco discutidas sobre Gandhi e seu legado. 

(tradução de Duda Teixeira)

Os santos devem sempre ser considerados culpados até que se prove sua inocência, mas os critérios que devem ser aplicados a eles não são, é claro, os mesmos em todos os casos. No caso de Gandhi, as perguntas que nos sentimos inclinados a fazer são: até que ponto Gandhi foi movido pela vaidade — pela consciência de si mesmo como um homem velho humilde e nu, sentado em um tapete de orações e sacudindo impérios com seu puro poder espiritual — e até que ponto ele comprometeu seus próprios princípios ao entrar na política, que por natureza é inseparável ​​da coerção e da fraude? Para dar uma resposta definitiva, seria necessário estudar os atos e escritos de Gandhi em detalhe, pois toda a sua vida foi uma espécie de peregrinação em que cada ação foi significativa. Mas essa autobiografia parcial, que termina na década de 1920, é uma forte evidência a seu favor, ainda mais porque abrange o que ele teria chamado de parte não regenerada de sua vida e lembra que dentro do santo, ou quase santo, havia uma pessoa muito astuta e capaz que poderia, se escolhesse, ter tido um sucesso brilhante como advogado, administrador ou talvez até mesmo empresário.

# Orwell escreveu esta resenha da autobiografia A história de minhas experiências com a verdade, de Mahatma Gandhi, em 1949

Mais ou menos na época em que a autobiografia apareceu pela primeira vez, lembro de ter lido seus capítulos iniciais nas páginas mal impressas de algum jornal indiano. Eles me causaram uma boa impressão, algo que o próprio Gandhi naquela época não tinha conseguido. As coisas que eram associadas a ele — tecidos feitos em casa, “forças da alma” e vegetarianismo — eram desinteressantes, e seu programa medieval obviamente não era viável em um país atrasado, faminto e superpovoado. Também era evidente que os britânicos estavam fazendo uso dele, ou pensavam que estavam fazendo uso dele. A rigor, como nacionalista, ele era um inimigo, mas como em todas as crises ele se esforçava para evitar a violência — o que, do ponto de vista britânico, significava impedir qualquer ação efetiva — ele poderia ser considerado o “nosso homem”. Nas conversas privadas, isso às vezes era admitido com cinismo. A atitude dos milionários indianos era semelhante. Gandhi exortou-os a se arrependerem e, naturalmente, eles o preferiram aos socialistas e comunistas que, se tivessem a chance, teriam levado o dinheiro deles embora. O quanto esses cálculos podem ser confiáveis no longo prazo é duvidoso. Como o próprio Gandhi diz, “no final, os enganadores enganam apenas a si mesmos”. De qualquer modo, a gentileza com que quase sempre era tratado devia-se em parte ao sentimento de que era útil. Os conservadores britânicos só ficaram realmente zangados com ele quando, como em 1942, ele estava de fato voltando sua não violência contra um conquistador diferente.

Mas eu pude ver, mesmo nessa época, que os oficiais britânicos que falavam dele com uma mistura de entusiasmo e desaprovação também gostavam dele e o admiravam genuinamente. Ninguém jamais sugeriu que ele era corrupto ou ambicioso de uma maneira vulgar, ou que qualquer coisa que ele tenha feito foi motivada pelo medo ou por malícia. Ao julgar um homem como Gandhi, parece que se aplica instintivamente padrões elevados, de modo que algumas de suas virtudes passaram quase despercebidas. Por exemplo, fica claro até mesmo pela autobiografia que sua coragem física natural foi bastante notável: a maneira como ele morreu depois mostrou isso, pois um homem público que atribuísse qualquer valor a si mesmo teria sido mais prudente. Mais uma vez, ele parece ter estado bastante livre daquela suspeita maníaca que, como E. M. Forster corretamente diz em Uma passagem para a Índia, é o vício que assola o indiano, assim como a hipocrisia é o vício do britânico. Embora sem dúvida ele fosse astuto o suficiente para detectar desonestidade, ele parecia, sempre que possível, ter acreditado que outras pessoas estavam agindo de boa-fé e tinham uma natureza melhor por meio da qual poderiam ser abordadas. E, embora viesse de uma família pobre de classe média, tivesse começado a vida de maneira bastante desfavorável e provavelmente tivesse uma aparência física inexpressiva, não era afligido pela inveja ou por um sentimento de inferioridade. O preconceito de cor, quando ele o conheceu em sua pior forma na África do Sul, parece tê-lo deixado surpreso. Mesmo quando estava lutando o que na verdade era uma guerra de cor, ele não pensava nas pessoas em termos de raça ou status. O governador de uma província, um milionário do algodão, um funcionário público subnutrido, um soldado britânico, eram todos igualmente seres humanos, que deviam ser abordados da mesma maneira. É chamativo que, mesmo nas piores circunstâncias possíveis, como quando estava ficando impopular na África do Sul ao se tornar o defensor da comunidade indiana, ele não ficou sem amigos europeus.

# Gandhi foi assassinado por um nacionalista hindu em 1948. Ele recebeu três tiros no peito e morreu na hora.

Escrita em pequenos textos para ser publicada como uma série em jornais, a autobiografia não é uma obra-prima literária, mas é ainda mais impressionante por causa da banalidade de grande parte de seu material. É bom lembrar que Gandhi começou com as ambições normais de um jovem estudante indiano e só adotou suas opiniões extremistas gradativamente e, em alguns casos, um tanto a contragosto. Houve um tempo, é interessante aprender, quando ele usava cartola, fazia aulas de dança, estudava francês e latim, subia na Torre Eiffel e até tentou aprender violino — tudo isso era a ideia de assimilar a civilização europeia tanto quanto possível. Ele não era um daqueles santos que se destacam por sua piedade fenomenal desde a infância, nem um daqueles que abandonam o mundo após orgias sensacionais. Ele faz uma confissão completa dos pecados de sua juventude, mas na verdade não há muito o que confessar. Na capa do livro, há uma foto das posses de Gandhi na época de sua morte. A roupa inteira poderia ser comprada por cerca de 5 libras, e os pecados de Gandhi, pelo menos os carnais, causariam a mesma aparência se fossem amontoados em uma pilha. Alguns cigarros, alguns pedaços de carne, algumas moedas surrupiadas da criada na infância, duas visitas a um bordel (em uma delas ele saiu “sem fazer nada“), uma breve escapada com sua senhoria em Plymouth, uma explosão de raiva — essa é a coleção toda. Quase desde a infância, ele tinha uma sinceridade profunda, uma atitude mais ética do que religiosa, mas, até os trinta anos, nenhum senso de direção muito definido. Sua primeira entrada em qualquer coisa que possa ser descrita como vida pública foi feita por meio do vegetarianismo. Sob suas qualidades menos comuns, é possível sentir o tempo todo os sólidos homens de negócios de classe média que foram seus antepassados. Sente-se que, mesmo depois de abandonar a ambição pessoal, ele deve ter sido um advogado habilidoso e enérgico e um organizador político pragmático, cuidadoso em manter as despesas baixas, um hábil manipulador de comitês e um incansável caçador de assinaturas. Seu caráter era extraordinariamente variado, mas não havia quase nada nele que se pudesse apontar e chamar de mau, e acredito que até os piores inimigos de Gandhi admitiriam que ele era um homem interessante e incomum, que enriqueceu o mundo simplesmente por estar vivo. Se ele também foi um homem adorável, e se seus ensinamentos podem contribuir muito para aqueles que não aceitam as crenças religiosas nas quais eles se baseiam, eu nunca tive plena certeza.

Gandhi em Midnapur, na Índia

Nos últimos anos, tem sido moda falar de Gandhi como se ele não apenas simpatizasse com o movimento de esquerda ocidental, mas fosse parte integrante dele. Anarquistas e pacifistas, em particular, o reivindicaram para si, notando apenas que ele se opunha ao centralismo e à violência do estado, e ignorando a tendência espiritual e anti-humanista de suas doutrinas. Mas devemos, eu acho, compreender que os ensinamentos de Gandhi não podem ser analisados sob a crença de que o homem é a medida de todas as coisas, e que nosso trabalho é fazer com que a vida valha a pena neste mundo, que é o único que temos. Eles fazem sentido apenas na suposição de que Deus existe e que o mundo dos objetos sólidos é uma ilusão da qual se deve escapar. Vale a pena considerar a disciplina que Gandhi impôs a si mesmo — embora ele não insistisse que cada um de seus seguidores observasse cada detalhe — que ele considerava ser indispensável ​​se alguém quisesse servir a Deus ou à humanidade. Em primeiro lugar, nada de comer carne e, se possível, nenhum alimento animal sob qualquer forma. (O próprio Gandhi, para o bem de sua saúde, teve que abrir uma exceção para o leite, mas parece ter achado que isso era um retrocesso.) Nada de álcool ou tabaco, e nada de especiarias ou condimentos, mesmo de tipo vegetal, já que a comida deveria ser ingerida não por si mesmo, mas apenas para preservar as forças. Em segundo lugar, se possível, nenhuma relação sexual. Se a relação sexual deve acontecer, então deve ser com o único propósito de gerar filhos e, presumivelmente, a longos intervalos. O próprio Gandhi, na casa dos 30 anos, fez o voto de brahmacharya, que significa não apenas castidade completa, mas também a eliminação do desejo sexual. Essa condição, ao que parece, é difícil de atingir sem uma dieta especial e jejum frequente. Um dos perigos de beber leite é que isso pode despertar o desejo sexual. E, finalmente — este é o ponto central — para aquele que busca a bondade, não deve haver amizades íntimas nem amores exclusivos.

Amizades íntimas, diz Gandhi, são perigosas, porque “amigos reagem uns aos outros” e, por meio da lealdade a um amigo, pode-se ser levado a cometer erros. Isso é sem dúvida verdadeiro. Além disso, se alguém deseja amar a Deus, ou amar a humanidade como um todo, não pode dar preferência a nenhuma pessoa individual. Novamente, isso é verdade e marca o ponto em que a atitude humanística e a religiosa deixam de ser reconciliáveis. Para um ser humano comum, o amor não significa nada se não significar amar algumas pessoas mais do que outras. A autobiografia deixa vago se Gandhi se comportou de maneira descuidada com sua esposa e filhos, mas de qualquer forma deixa claro que, em três ocasiões, ele estava disposto a deixar sua esposa ou filho morrer em vez de administrar a comida animal prescrita pelo médico. É verdade que a ameaça de morte nunca aconteceu realmente, e também que Gandhi — com uma boa dose de pressão moral na direção oposta — sempre deu ao paciente a opção de permanecer vivo ao preço de cometer um pecado. No entanto, se a decisão fosse exclusivamente dele, teria proibido a comida animal, quaisquer que fossem os riscos. Deve haver, diz ele, algum limite para o que faremos para permanecer vivos, e o limite está bem aquém do caldo de galinha. Essa atitude talvez seja nobre, mas no sentido que — eu acho — a maioria das pessoas daria à palavra, é desumana. O essencial no fato de sermos humanos é que não buscamos a perfeição, às vezes estamos dispostos a cometer pecados em nome da lealdade, não levamos o ascetismo a ponto de impossibilitar o relacionamento amigável e estamos preparados no fim para sermos derrotados e despedaçados pela vida, o que é o preço inevitável de fixarmos o amor em outros indivíduos humanos. Sem dúvida, álcool, tabaco etc. são coisas que um santo deve evitar, mas a santidade também é algo que os seres humanos devem evitar. Há uma resposta óbvia para isso, mas deve-se ter cuidado ao fazê-la. Nesta era dominada pelo iogue, é muito facilmente assumido que o “desapego” não é apenas melhor do que uma aceitação plena da vida terrena, mas que o homem comum apenas rejeita essa ideia porque ela é muito difícil: em outras palavras, que o ser humano comum é um santo fracassado. É duvidoso que isso seja verdade. Muitas pessoas genuinamente não desejam ser santos, e é provável que alguns que alcançam a santidade ou aspiram a ela nunca tenham sentido muita tentação de serem seres humanos. Se pudéssemos aprofundar as raízes psicológicas, creio que descobriríamos que o principal motivo para o “desapego” é o desejo de escapar da dor de viver e, acima de tudo, do amor, que, sexual ou não sexual, é um trabalho árduo. Mas não é necessário discutir aqui se o ideal de um mundo espiritual ou um ideal humanístico é “superior“. A questão é que eles são incompatíveis. Deve-se escolher entre Deus e o homem, e todos os “radicais” e “progressistas”, do liberal mais brando ao anarquista mais radical, na verdade escolheram o homem.

No entanto, o pacifismo de Gandhi pode ser separado até certo ponto de seus outros ensinamentos. Seu motivo era religioso, mas ele também afirmava que era uma técnica definitiva, um método capaz de produzir resultados políticos desejados. A atitude de Gandhi não era a da maioria dos pacifistas ocidentais. Satyagraha, desenvolvida primeiro na África do Sul, era uma espécie de guerra não violenta, uma forma de derrotar o inimigo sem feri-lo e sem sentir ou despertar ódio. Implicou coisas como desobediência civil, greves, deitar-se na frente de trens ferroviários, suportar acusações policiais sem fugir e sem revidar, e assim por diante. Gandhi se opôs à “resistência passiva” como uma tradução de satyagraha: em Gujarati, ao que parece, a palavra significa “firmeza na verdade”. Em seus primeiros dias, Gandhi serviu como carregador de maca no lado britânico na Guerra dos Bôeres e estava preparado para fazer o mesmo novamente na guerra de 1914-18. Mesmo depois de ter renunciado completamente à violência, ele foi honesto o suficiente para ver que na guerra geralmente é necessário tomar partido. Ele não adotou — na verdade, já que toda a sua vida política girava em torno da luta pela independência nacional, ele não podia — a linha estéril e desonesta de fingir que em todas as guerras os dois lados são exatamente iguais e não faz diferença quem ganha. Nem ele, como a maioria dos pacifistas ocidentais, se especializou em evitar perguntas embaraçosas. Em relação à guerra tardia, uma pergunta que todo pacifista tinha a obrigação clara de responder era: “E os judeus? Você está preparado para vê-los exterminados? Se não, como você pretende salvá-los sem recorrer à guerra?”. Devo dizer que nunca ouvi, de nenhum pacifista ocidental, uma resposta honesta a essa pergunta, embora tenha ouvido muitas evasivas, geralmente do tipo “você é mais um“. Mas acontece que Gandhi ouviu uma pergunta muito semelhante em 1938 e sua resposta está registrada em Gandhi e Stalin de Louis Fischer. De acordo com Fischer, Gandhi, a opinião de que os judeus alemães deveriam cometer suicídio coletivo, o que “teria despertado o mundo e o povo da Alemanha para a violência de Hitler“. Depois da guerra, ele se justificou: os judeus haviam sido mortos de qualquer maneira, e poderiam ter morrido de forma significativa. Tem-se a impressão de que essa atitude surpreendeu até mesmo um admirador caloroso como o Sr. Fischer, mas Gandhi estava apenas sendo honesto. Se você não está preparado para tirar uma vida, muitas vezes deve estar preparado para que vidas sejam perdidas de alguma outra forma. Quando, em 1942, ele pediu resistência não violenta contra a invasão japonesa, ele estava pronto para admitir que isso poderia custar vários milhões de mortes.

Gandhi produzindo a própria roupa

Ao mesmo tempo, há motivos para pensar que Gandhi, que afinal nasceu em 1869, não entendia a natureza do totalitarismo e via tudo em termos de sua própria luta contra o governo britânico. O ponto importante aqui não é tanto que os britânicos o trataram com paciência, mas que ele sempre foi capaz de gerar publicidade. Como pode ser visto pela frase citada acima, ele acreditava em “despertar o mundo”, o que só é possível se o mundo tiver a chance de ouvir o que você está fazendo. É difícil ver como os métodos de Gandhi poderiam ser aplicados em um país onde os oponentes do regime desaparecem no meio da noite e nunca mais se escuta falar deles. Sem uma imprensa livre e sem direito de reunião, é impossível não apenas apelar à opinião externa, mas fazer surgir um movimento de massa, ou mesmo que o adversário conheça as suas intenções. Existe um Gandhi na Rússia neste momento? E se houver, o que ele está realizando? As massas russas só poderiam praticar a desobediência civil se a mesma ideia ocorresse a todas elas simultaneamente e, mesmo assim, a julgar pela história da fome na Ucrânia, não faria diferença. Mas consideremos que a resistência não violenta possa ser eficaz contra o próprio governo ou contra uma potência ocupante: mesmo assim, como colocá-la em prática internacionalmente? As várias declarações conflitantes de Gandhi sobre a última guerra [Segunda Guerrra Mundial] parecem mostrar que ele sentiu a dificuldade disso. Aplicado à política externa, o pacifismo deixa de ser pacifista ou se torna apaziguamento. Além disso, a suposição, que serviu tão bem a Gandhi no trato com indivíduos, de que todos os seres humanos são mais ou menos acessíveis e responderão a um gesto generoso, precisa ser seriamente questionada. Não é necessariamente verdade, por exemplo, quando você está lidando com lunáticos. Então a pergunta se torna: Quem é são? Hitler era são? E não é possível que uma cultura inteira seja insana pelos padrões de outra? E, tanto quanto se pode avaliar os sentimentos de nações inteiras, existe alguma conexão aparente entre um ato generoso e uma resposta amigável? A gratidão é um fator na política internacional?

Essas e outras questões semelhantes precisam ser discutidas, e com urgência, nos poucos anos que nos restam antes que alguém aperte o botão e os foguetes comecem a voar. Parece duvidoso que a civilização possa resistir a outra grande guerra, e é pelo menos concebível que a saída seja através da não violência. É virtude de Gandhi que ele estivesse pronto para considerar honestamente o tipo de questão que levantei acima; e, de fato, ele provavelmente discutiu muitas dessas questões em um lugar ou outro em seus inúmeros artigos de jornal. Sente-se dele que havia muita coisa que ele não entendia, mas não que houvesse algo que ele tivesse medo de dizer ou pensar. Nunca senti muita simpatia por Gandhi, mas não digo que, como pensador político, ele estava errado no geral, nem acredito que sua vida tenha sido um fracasso. É curioso que, quando foi assassinado, muitos de seus admiradores mais calorosos exclamaram com tristeza que ele viveu apenas o suficiente para ver sua vida em ruínas, porque a Índia estava envolvida em uma guerra civil que sempre fora prevista como uma das consequências da transferência de poder. Mas não foi tentando aplacar a rivalidade hindu-muçulmana que Gandhi passou a vida. Seu principal objetivo político, o fim pacífico do domínio britânico, afinal havia sido alcançado. Como sempre, os fatos relevantes se cruzam. Por outro lado, os britânicos saíram da Índia sem lutar, um evento que poucos observadores teriam previsto até cerca de um ano antes de acontecer. Por outro lado, isso foi feito por um governo trabalhista, e é certo que um governo conservador, especialmente um governo chefiado por Churchill, teria agido de forma diferente. Mas se, em 1945, havia crescido na Grã-Bretanha um grande frente na opinião pública simpática à independência indiana, até que ponto isso se devia à influência pessoal de Gandhi? E se, como pode acontecer, Índia e Grã-Bretanha finalmente estabelecerem um relacionamento decente e amigável, será em parte porque Gandhi, ao manter sua luta obstinada e sem ódio, desinfetou o ar político? Só o fato de alguém pensar em tais perguntas indica a sua estatura. Pode-se sentir, como eu, uma espécie de aversão estética por Gandhi, pode-se rejeitar as reivindicações de santidade feitas em seu nome (ele mesmo nunca fez tal reivindicação, aliás), pode-se também rejeitar a santidade como um ideal e, portanto, sentir que os objetivos básicos de Gandhi eram anti-humanos e reacionários: mas, considerado-o simplesmente como um político, e em comparação com outras figuras políticas importantes de nosso tempo, que cheiro puro ele conseguiu deixar para trás!

Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra espanhola, por George Orwell

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