Como George Orwell soube da fome na Ucrânia

Um leitor atento do blog, Claudio dos Santos Lima, comentou meu post em que critico as conexões que o filme A Sombra de Stalin faz com George Orwell. Na película da Netflix, a diretora Agnieszka Holland insinua que o autor de Revolução dos Bichos teria se inspirado nas reportagens do jornalista galês Gareth Jones, que foi para a União Soviética em três momentos, nos anos 1930.

Segundo o leitor do blog (Obrigado pelo comentário, Claudio!), há uma semelhança entre a descrição do fracasso do moinho e o que ocorreu com o jornalista Gareth Jones após a publicação de suas denúncias sobre a fome na União Soviética, e “não é impossível acreditar que essas reportagens tenham influenciado George Orwell“.

De fato, quem prestar atenção nos trechos em que Orwell fala do moinho em Revolução dos Bichos poderá notar que em vários momentos ele parece fazer referência à fome na Ucrânia (mais adiante, farei outro post comparando esses pedaços com algumas reportagens de Gareth Jones). Só não há qualquer comprovação de que Orwell tenha lido as reportagens de Jones ou se inspirado nele. 

Além disso, sabe-se que Orwell tinha outros meios para se informar sobre a fome na Ucrânia.

O escritor britânico fala sobre a fome na Ucrânia em diversos de seus textos, como A liberdade da imprensa, Reflexões sobre Gandhi, A prevenção contra a literatura, Notas sobre o nacionalismo e Dentro da baleia

No meu preferido, Reflexões sobre Gandhi, ele diz que os métodos do guru indiano não poderiam ser aplicados em países totalitários, como a União Soviética sob o comando de Josef Stalin. “Existe um Gandhi na Rússia neste momento? E, se houver, o que ele está realizando? As massas russas só poderiam praticar a desobediência civil se a mesma ideia ocorresse a todas elas simultaneamente e, mesmo assim, a julgar pela história da fome na Ucrânia, não faria diferença”, escreve Orwell.  

Orwell teve pelo menos duas boas fontes para se inteirar sobre a catástrofe que se abateu sobre ucranianos e russos. A primeira é o seu amigo Malcolm Muggeridge, que o acompanhou em seus últimos momentos. Dias antes de Gareth Jones dar a sua coletiva de imprensa em Berlim, em 31 de março de 1933, para falar da viagem que fizera para a Ucrânia, Muggeridge publicou no jornal Manchester Guardian uma série de reportagens. Os textos que saíram com o título “O soviético e o campesinato” foram publicados de forma anônima nos dias 25, 27 e 28 de março. “A população está morrendo de fome”, escreveu Muggeridge

Em 1940, Orwell escreveu uma resenha do livro The Thirties, de Muggeridge, sobre a década de 30. Ele considerou a obra “brilhante e deprimente“. Só em 1943 ele começou a escrever a Revolução dos Bichos. Em 1945, Orwell foi enviado para Paris para cobrir a libertação dos nazistas. Lá, ele se encontrou várias vezes com Muggeridge. Revolução dos Bichos foi lançado nesse ano.

Imagem do Museu do Holodomor, na Ucrânia

A outra fonte de Orwell sobre o que acontecia na União Soviética e na Ucrânia foi o jornalista Eugene Lyons, correspondente da United Press em Moscou. Em 1937, Orwell publicou uma resenha sobre o livro de Lyons, Assignment in Utopia (Um correspondente na Utopia em tradução livre).

O mais próximo que Orwell chegou de Gareth Jones é que Lyons descreve nesse livro como os demais jornalistas que cobriam a União Soviética abafaram o trabalho e a importância de Jones (prometo também trazer num próximo post tudo o que ele conta sobre esse episódio).

Mas ler sobre como os demais jornalistas boicotaram Gareth Jones no livro de Eugene Lyons é diferente de ler as reportagens escritas por Jones. Certo? Ou não? Enfim, fica a discussão.

Orwell e Jones compartilhavam a repulsa pelo totalitarismo, ainda que o primeiro se considerasse um “socialista democrático” e o segundo, um liberal. Uma pena mesmo que os dois nunca tenham se conhecido e conversado um pouco, como na cena inventada pelos roteiristas do filme A Sombra de Stalin.

‘Mr. Jones – A Sombra de Stalin’ força a mão com George Orwell

Por Duda Teixeira. O filme Mr. Jones – A Sombra de Stalin traz uma boa descrição do Holodomor, a fome que matou milhões na União Soviética nos anos 1930. Disponível na Netflix, a obra conta a aventura do jornalista Gareth Jones, que viajou para a Ucrânia e depois narrou as atrocidades cometidas por Josef Stalin na Ucrânia. Mas o filme força um pouco a mão ao incluir o escritor britânico George Orwell no enredo.

Uma das teses do filme é de que as reportagens de Gareth Jones influenciaram George Orwell para escrever o livro A Revolução dos Bichos (ou Fazenda dos Animais, dependendo da tradução). O filme mostra uma conversa entre Jones e Orwell. Também insinua, logo no início, que o nome do dono da fazenda deposto pelos animais no livro de Orwell, “Sr. Jones“, foi dado em homenagem ao jornalista Gareth Jones.

É uma tese problemática, embora não impossível, e aqui listo os motivos:

  1. O fazendeiro do livro de Orwell é a representação do czar Nicolau, que foi deposto na Revolução Russa de 1917. Não faria sentido dar o nome de um jornalista que revelou os crimes do stalinismo à pessoa que foi derrubada pela revolução. São papéis diferentes. A escolha de “Jones“, por Orwell, parece ter sido mais a busca por um nome comum.
  2. Orwell escreveu diversas resenhas de livros e publicou vários artigos em jornais. Esse era o seu ganha-pão, além dos royalties com a venda de livros. Em nenhum desses textos o escritor britânico cita Gareth Jones.
  3. O encontro entre Gareth Jones e George Orwell, mostrado no filme (foto), nunca ocorreu. Pode-se justificar algo assim falando em “licença poética“. Pode até ser. Mas, no meu entender, isso vai levar muita gente ingênua a acreditar em algo que nunca existiu. Ironicamente, George Orwell já tinha alertado sobre os perigos de se alterar o passado.
  4. Os textos de Gareth Jones não eram a única fonte sobre as atrocidades cometidas pelo stalinismo. No livro Homenagem à Catalunha, por exemplo, Orwell fala dos Processos de Moscou, em que Stalin executa opositores trotskistas. Enfim, Orwell não precisava ler Gareth Jones para conhecer os horrores do stalinismo.
  5. O argumento de Revolução dos Bichos é de que os revolucionários, após vencer seus exploradores, passam a repetir seus crimes e vícios. O que Gareth Jones fez foi descrever a fome na Ucrânia, uma consequência do Plano Quinquenal de Josef Stalin. São temas próximos, mas distintos. Para encontrar a verdadeira inspiração de Orwell para Revolução dos Bichos é preciso olhar para a Guerra Civil Espanhola, onde os revolucionários comunistas estavam reproduzindo comportamentos que eram atacados pela esquerda. Em Barcelona, Orwell viu os comunistas perseguindo e matando anarquistas e trotskistas, com apoio da União Soviética de Stalin. Orwell também se indigna ao ver que na Barcelona republicana, governada por partidos de esquerda, algumas pessoas ricas voltaram a se vestir com elegância e a frequentar restaurantes chiques (porcos dormindo em camas?). Ele também reclama que os comunistas apoiados pela URSS estavam querendo impedir uma revolução de verdade.
  6. A ordem dos fatos no tempo parece confirmar que a Guerra Civil Espanhola foi mais influente nas obras finais de Orwell. O escritor foi para a Espanha no final de 1936 e voltou de lá em 1937. Publicou Revolução dos Bichos em 1945. Os textos de Gareth Jones são do início dos anos 1930. Seus últimos textos sobre a fome na Ucrânia são publicados em jornais americanos no início de 1935. No mesmo ano, Jones foi assassinado na China. No prefácio da edição ucraniana de Revolução dos Bichos, Orwell escreve que só começou a escrever esse livro em 1943. “As principais linhas da história [deste livro] ficaram na minha mente por um período de seis anos antes de que eu começasse a escrevê-la“, admitiu. A história de Revolução dos Bichos entra na sua cabeça, portanto, em 1937, quando ele sai da Espanha.

Para quem quiser ler o que de fato inspirou A Revolução dos Bichos e 1984, a dica é a obra Homenagem à Catalunha e Recordando a Guerra Espanhola, lançado pela Avis Rara, traduzido por mim.

George Orwell admitiu a importância de sua viagem para a Espanha nas obras que publicou mais tarde no artigo Por que escrevo:

A guerra espanhola e outros eventos em 1936 e 1937 mudaram o equilíbrio da situação e depois disso eu soube onde estava. Cada linha de trabalho sério que fiz desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, da forma como eu o entendo.”

PS1: A dica do filme foi do meu amigo de escola Guilherme Figueiredo, que hoje vive lá na Amazônia. Valeu, Figa!

PS2: Logo mais publico outro texto, mostrando onde estão os pontos em comum entre A Revolução dos Bichos e as reportagens de Gareth Jones. Prometo 😉