‘Mr. Jones – A Sombra de Stalin’ erra a mão com George Orwell

Por Duda Teixeira. O filme Mr. Jones – A Sombra de Stalin traz uma boa descrição do Holodomor, a fome que matou milhões na União Soviética nos anos 1930. Disponível na Netflix, a obra conta a aventura do jornalista Gareth Jones, que viajou para a Ucrânia e depois narrou as atrocidades cometidas por Josef Stalin na Ucrânia. Mas o filme erra feio ao incluir o escritor britânico George Orwell no enredo.

Uma das teses do filme é de que as reportagens de Gareth Jones influenciaram George Orwell para escrever o livro A Revolução dos Bichos (ou Fazenda dos Animais, dependendo da tradução). O filme mostra uma conversa entre Jones e Orwell. Também insinua, logo no início, que o nome do dono da fazenda deposto pelos animais no livro de Orwell, “Sr. Jones“, foi dado em homenagem ao jornalista Gareth Jones.

É uma tese furada, e aqui listo os motivos:

  1. O fazendeiro do livro de Orwell é a representação do czar Nicolau, que foi deposto na Revolução Russa de 1917. Não faria sentido dar o nome de um jornalista que revelou os crimes do stalinismo à pessoa que foi derrubada pela revolução. São papéis diferentes. A escolha de “Jones“, por Orwell, parece ter sido mais a busca por um nome comum.
  2. Orwell escreveu diversas resenhas de livros e publicou vários artigos em jornais. Esse era o seu ganha-pão, além dos royalties com a venda de livros. Em nenhum desses textos o escritor britânico cita Gareth Jones.
  3. O encontro entre Gareth Jones e George Orwell, mostrado no filme (foto), nunca ocorreu. Pode-se justificar algo assim falando em “licença poética“. Pode até ser. Mas, no meu entender, isso vai levar muita gente ingênua a acreditar em algo que nunca existiu. Ironicamente, George Orwell já tinha alertado sobre os perigos de se alterar o passado. A preocupação de Orwell era como essas distorções favoreceriam governos totalitários. No caso de “A Sombra de Stalin“, parece só ser um meio de aumentar a bilheteria.
  4. Os textos de Gareth Jones não eram a única fonte sobre as atrocidades cometidas pelo stalinismo. No livro Homenagem à Catalunha, por exemplo, Orwell fala dos Processos de Moscou, em que Stalin executa opositores trotskistas. Enfim, Orwell não precisava ler Gareth Jones para conhecer os horrores do stalinismo.
  5. O argumento de Revolução dos Bichos é de que os revolucionários, após vencer seus exploradores, passam a repetir seus crimes e vícios. O que Gareth Jones fez foi descrever, pela primeira vez, a fome na Ucrânia. São temas próximos, mas distintos. Para encontrar a verdadeira inspiração de Orwell para Revolução dos Bichos é preciso olhar para a Guerra Civil Espanhola, onde os revolucionários comunistas estavam reproduzindo comportamentos que eram atacados pela esquerda. Em Barcelona, Orwell viu os comunistas perseguindo e matando anarquistas e trotskistas, com apoio da União Soviética de Stalin. Orwell também se indigna ao ver que na Barcelona republicana, governada por partidos de esquerda, algumas pessoas ricas voltaram a se vestir com elegância e a frequentar restaurantes chiques (porcos dormindo em camas?). Ele também reclama que os comunistas apoiados pela URSS estavam querendo impedir uma revolução de verdade.
  6. A ordem dos fatos no tempo parece confirmar que a Guerra Civil Espanhola foi mais influente nas obras finais de Orwell. O escritor foi para a Espanha no final de 1936 e voltou de lá em 1937. Publicou Revolução dos Bichos em 1945. Os textos de Gareth Jones são do início dos anos 1930.

Para quem quiser ler o que de fato inspirou A Revolução dos Bichos e 1984, a dica é a obra Homenagem à Catalunha e Recordando a Guerra Espanhola, lançado pela Avis Rara, traduzido por mim.

George Orwell admitiu a importância de sua viagem para a Espanha nas obras que publicou mais tarde no artigo Por que escrevo:

A guerra espanhola e outros eventos em 1936 e 1937 mudaram o equilíbrio da situação e depois disso eu soube onde estava. Cada linha de trabalho sério que fiz desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, da forma como eu o entendo.”

O filme “A Sombra de Stalin” vale como entretenimento, mas recomendo dar um bom desconto em tudo o que aparece de George Orwell ali.

PS: A dica do filme foi do meu amigo de escola Guilherme Figueiredo, que hoje vive lá na Amazônia. Valeu, Figa!

Publicado por Eduardo Gracioli Teixeira

Jornalista e escritor. Autor dos livros O Calcanhar do Aquiles, 100 Dúvidas Universais, Guia Secreto de Buenos Aires. Coautor, com Leandro Narloch, do Guia Politicamente Incorreto da América Latina. Tradutor de Homenagem à Catalunha, de George Orwell

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