12 motivos para você ler Homenagem à Catalunha AGORA

Por Duda Teixeira

A editora Avis Rara acaba de lançar o livro Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra espanhola, de George Orwell. A tradução e as notas foram de minha responsabilidade. Quando li este livro pela primeira vez, fiquei completamente vidrado. Hoje, acho que ele pode ser um bálsamo para muitos brasileiros que não aguentam mais falar da pandemia e querem partir para outra. Pensando nessa turma, elenco aqui doze boas razões para iniciar a leitura:

1. Viaje com Orwell

O autor britânico tinha só 33 anos quando pegou um trem e se mandou para Barcelona. Conheceu pessoas do mundo inteiro que foram lutar na Espanha e experimentou os costumes locais. E o melhor: Orwell é ótimo para narrar os seus próprios sentimentos quando faz suas descobertas. Dá facilmente para curtir a aventura ao lado dele. Trechinho: “Bebíamos de uma coisa horrível chamada porrón. Um porrón é uma espécie de garrafa de vidro com um bico pontudo, de onde sai um jato fino de vinho quando é inclinado. (…) Aquilo parecia um penico, especialmente quando estava cheio de vinho branco”.

2. Conheça o livro que deu origem a 1984 e Revolução dos Bichos

Esses dois livros de ficção são críticas pesadas ao totalitarismo, ao abuso de poder e ao controle e distorção da informação. Eles têm uma origem em comum, a experiência real que Orwell teve na Espanha. No artigo Por que escrevo, Orwell diz: “A guerra espanhola e outros eventos em 1936 e 1937 mudaram o equilíbrio da situação e depois disso eu soube onde estava. Cada linha de trabalho sério que fiz desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, da forma como eu o entendo”. A Revolução dos Bichos foi publicado em 1945. O livro 1984 saiu em 1949.

3. Admita: vivemos sob o império das circunstâncias

Sim, você teve de cancelar viagens na pandemia. Também não pôde sair com seus amigos. O controle que temos sobre nossas vidas é limitado. Orwell chegou a Barcelona, mas queria lutar com a Coluna Internacional em Madri. Não foi. Por quê? Trechinho: “Eu ainda tinha direito a outra semana de licença e estava muito ansioso para recuperar minha saúde antes de voltar para a linha. Além disso — o tipo de detalhe que sempre decide o destino de alguém — tive que esperar enquanto os sapateiros faziam para mim um novo par de botas”.

4. Saiu uma edição primorosa

A editora Avis Rara lançou um livro lindo, leve e gostoso de ler, com ilustrações de Fernando Mena e edição de Carla Sacrato e Pedro Almeida. A preparação foi de Rosa Casselato. Revisão de Denise Silva Rocha Costa e Thais Entriel. Além de Homenagem à Catalunha, a obra traz também outra obra do autor, Recordando a guerra espanhola. Já está nas livrarias!

5. Prepare sua viagem para Barcelona

Não importa se você já esteve na cidade catalã ou não. O livro vai te dar um comichão enorme para marcar um voo para lá e conferir os locais que Orwell descreve. Quando estava dormindo pelas ruas da cidade, com medo de ser preso pelos comunistas apoiados por Moscou, Orwell deparou-se com a badalada igreja da Sagrada Família, de Gaudí: “Uma catedral moderna e um dos edifícios mais medonhos do mundo. Tem quatro torres com ameias, com exatamente o mesmo formato de garrafas de vinho (…) Acho que os anarquistas mostraram mau gosto em não explodir a catedral quando tiveram a chance”. Será mesmo?

6. Fake news também é coisa do passado

Este debate não é novo. Orwell, do seu hotel em Barcelona, criticou o gordo agente russo que falava de uma conspiração entre anarquistas e franquistas para todos os refugiados estrangeiros: “Era a primeira vez que via uma pessoa cuja profissão era contar mentiras — a menos que se incluam os jornalistas”. No livro 1984, Orwell criou o Ministério da Verdade, em que seus funcionários tinham como profissão alterar ou criar o passado.

7. Fuja da polarização desafiando o preconceito

Orwell mostra um espírito de jornalista, interessado em conhecer e entender o mundo à sua volta e formar suas opiniões a partir da experiência. Em vários momentos, ele questiona as próprias ideias. Um deles é quando diz que foi para a Espanha com o intuito de matar fascistas, mas que não atirou quando teve uma oportunidade. Diz ele, em Recordando a guerra espanhola: “Ele estava vestido parcialmente e segurava as calças com as duas mãos enquanto corria. Eu me abstive de atirar nele. (…) Não disparei em parte por causa desse detalhe sobre as calças. Tinha vindo aqui para atirar nos ‘fascistas’, mas um homem segurando as calças não é um ‘fascista’”.

8. Tem totalitarismo de esquerda e de direita

Orwell pegou o trem na Inglaterra achando que ia entrar numa guerra contra o fascismo e a favor da democracia. Depois de botar os pés na Espanha, aprendeu que os comunistas, que apoiavam a República contra os franquistas golpistas, estavam perseguindo, prendendo e matando anarquistas e trotskistas. Tem até um momento no livro em que Orwell chamou os comunistas de fascistas, tamanha era a semelhança entre os dois grupos.

9. Todos somos seres humanos

Orwell foi para a Espanha em nome de uma causa, mas como ser humano também tirava alguns momentos para aproveitar a vida. Em Barcelona, ele teve de recusar uma oportunidade para ir lutar em Madri porque estava comendo e bebendo demais, depois de ficar meses nas trincheiras em Aragão. “Depois de vários meses de desconforto, tive um desejo voraz de comida e vinho decentes, coquetéis, cigarros americanos e assim por diante, e admito ter chafurdado em todos os luxos que o meu dinheiro podia comprar”, escreve Orwell.

10. Dê risadas

Ao narrar a situação dos soldados e as idiossincrasias da guerra, Orwell destila bom humor. Uma das suas histórias fala que os espanhóis republicanos gritavam com megafones para convencer os inimigos a desertar: “Estamos apenas nos sentando para comer torradas com manteiga aqui! Lindas fatias de torrada com manteiga!“. Outra parte divertida é quando Orwell descreve como funcionava o sistema de senhas entre os soldados que perambulavam pelas trincheiras: “Catalunha! Heroica!”. 

11. Entenda a Guerra Civil Espanhola

Este foi um acontecimento muito complexo, onde lutaram fascistas italianos, nazistas e agentes comunistas russos, além de voluntários do mundo todo. Por isso, é considerado o esboço da Segunda Guerra Mundial. Nesta edição da Avis Rara, o leitor conta com a ajuda de uma linha do tempo, dezenas de notas informativas e um glossário. 

12. É preciso lutar, porque nada está garantido

Em seu Recordando a guerra espanhola, Orwell alerta para o risco de um futuro totalitário. Ele critica a sensação de que o bem sempre vence no final, então não é preciso lutar contra os líderes autoritários. “Nós, na Inglaterra, subestimamos o perigo desse tipo e coisa, porque nossas tradições e nossa segurança anterior nos deram uma crença emocional de que tudo dá certo no final e que aquilo que mais se teme nunca realmente acontece“, escreve ele na Parte 4 de Recordando. “Mas por que deveria ser assim? Que evidência existe de que isso acontece?.” Orwell não apenas pegou em armas contra o fascismo e se revoltou contra o stalinismo, como publicou diversas obras denunciando esses regimes.

Publicado por Eduardo Gracioli Teixeira

Jornalista e escritor. Autor dos livros O Calcanhar do Aquiles, 100 Dúvidas Universais, Guia Secreto de Buenos Aires. Coautor, com Leandro Narloch, do Guia Politicamente Incorreto da América Latina. Tradutor de Homenagem à Catalunha, de George Orwell

4 comentários em “12 motivos para você ler Homenagem à Catalunha AGORA

    1. Oi Marilena, o livro Homenagem à Catalunha e Recordando a Guerra Espanhola já foi lançado em papel pela Avis Rara. Você pode encontrar nas livrarias ou nas lojas digitais. O link da Amazon é este aqui: https://www.amazon.com.br/Homenagem-Catalunha-recordando-Guerra-Espanhola/dp/6559570665/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=recordando+a+guerra+espanhola&qid=1637531159&sr=8-1

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